ndo, a dança dos cavaleiros, que
corta e bate, não. Esta é a dança do espadachim, a
dança da água, rápida e súbita. Todos os homens são
feitos de água, sabia disto? Quando os perfura, a
água jorra e eles morrem - deu um passo para trás,
ergueu a própria lâmina de madeira. - Agora tente
me atingir.
Arya tentou atingi-lo. Tentou durante quatro horas,
até ficar com cada músculo do corpo dolorido,
enquanto Syrio Forel fazia estalar os dentes e lhe
dizia que fazer. No dia seguinte, começou o
verdadeiro trabalho.

Daenerys

O Mar Dothraki - disse Sor Jorah Mormont ao puxar
as rédeas do cavalo e parar ao lado dela no topo da
colina.
A seus pés, a planície estendia-se imensa e vazia,
uma vasta extensão plana que atingia e ultrapassava
o horizonte distante. Foi um mar, pensou Dany. Para
lá do lugar onde estavam não havia colinas nem
montanhas, nem árvores, cidades ou estradas,
apenas a mata sem fim, cujas folhas altas ondulavam
como ondas quando o vento soprava.
- É tão verde - ela admirou.
- Aqui e agora - concordou Sor Jorah. - Tem de vê-
lo quando floresce, flores vermelhas escuras de
horizonte a horizonte, como um mar de sangue. E
quando chega a estação seca, o mundo fica da cor de
bronze velho. E isto é apenas a hranna, menina. Há
ali cem tipos de plantas, amarelas como limão-
siciliano e escuras como índigo, azuis e cor de
laranja, e as que são como arco-íris. E dizem que nas
Terras das Sombras, para lá de Asshai, há oceanos de
erva-fantasma, mais alta que um homem a cavalo e
com caules tão claros como vidro leitoso. Mata todas
as outras plantas e brilha no escuro com os espíritos
dos condenados. Os dothrakis dizem que um dia a
erva-fantasma cobrirá o mundo inteiro, e então toda
a vida terminará.
Essa idéia fez Dany se arrepiar.
- Não quero falar disso agora - ela retrucou, - Isto
aqui é tão lindo que não quero pensar na morte de
tudo,
- Como desejar, Khaleesi - Sor Jorah disse
respeitosamente.
Dany ouviu o som de vozes e virou-se para olhar
para trás. Ela e Mormont tinham se distanciado do
resto da comitiva, e agora os outros vinham subindo
a colina lá embaixo. Os movimentos da criada Irri e
dos jovens arqueiros de seu khas eram fluidos como
centauros, mas Viserys ainda lutava com os estribos
curtos e a sela plana. O irmão era infeliz ali. Nunca
deveria ter vindo. Magíster Illyrio insistira com ele
para que esperasse em Pentos, oferecera-lhe a
hospitalidade de sua mansão, mas Viserys nem
quisera ouvir falar do assunto. Queria ficar com
Drogo até que a dívida fosse paga, até ter a coroa
que lhe fora prometida. "E se ele tentar me enganar,
aprenderá, para sua desgraça, o que significa acordar
o dragão", ele garantira, pousando a mão na espada
emprestada. Illyrio pestanejara ao ouvir aquilo e lhe
desejara boa sorte.
Dany percebeu que naquele momento não desejava
ouvir nenhuma das queixas do irmão. O dia estava
bastante perfeito. O céu era de um azul profundo, e
muito acima deles um falcão caçador voava em
círculos. O mar de plantas oscilava e suspirava a
cada sopro do vento, o ar batia-lhe morno no rosto, e
Dany sentia-se em paz. Não deixaria que Viserys
estragasse tudo.
- Espere aqui - disse Dany a Sor Jorah. - Diga a
todos para ficar. Diga que eu estou ordenando.
O cavaleiro sorriu. Sor Jorah não era um homem
bonito. Tinha pescoço e ombros de touro e rudes
pelos negros cobriam-lhe os braços e o pescoço de
uma forma tão densa que nada restava rara a
cabeça. Mas seus sorrisos davam conforto a Dany.
- Está aprendendo a falar como uma rainha,
Daenerys.
- Uma rainha, não - ela respondeu. - Uma khaleesi -
fez girar o cavalo e galopou sozinha rela encosta
abaixo.
A descida era íngreme e rochosa, mas Dany cavalgou
destemidamente, e o júbilo e o perigo daquilo eram
uma canção no seu coração. Por toda sua vida
Viserys lhe dissera que era uma princesa, mas só
quando montou sua prata é que Daenerys Targaryen
se sentira como uma.
A princípio não fora fácil. O khalasar levantara o
acampamento na manhã seguinte ao casamento,
dirigindo-se para leste em direção a Vaes Dothrak, e
no terceiro dia Dany pensou que ia morrer. Feridas
provocadas pela sela abriram-se no seu traseiro,
hediondas e sangrentas. As coxas ficaram em carne
viva, as rédeas fizeram nascer bolhas nas mãos, e os
músculos das pernas e das costas estavam de tal
forma doloridos que quase não era capaz de se
sentar. Quando caía o crepúsculo, as criadas tinham
de ajudá-la a desmontar,
Nem mesmo as noites traziam alívio. Khal Drogo
ignorava-a enquanto viajavam, tal como a ignorara
durante o casamento, e passava o começo da noite
bebendo com seus guerreiros e companheiros de
sangue, competindo com seus melhores cavalos,
vendo mulheres dançar e homens morrer. Dany não
tinha lugar naquelas partes de sua vida. Era
abandonada para jantar sozinha ou com Sor Jorah e
o irmão, para depois chorar até adormecer. Mas
todas as noites, em algum momento antes da
alvorada, Drogo vinha à sua tenda e a acordava na
escuridão para montá-la tão implacavelmente como
montava seu garanhão. 